Você já teve a sensação de estar cercada de pessoas, mas, ainda assim, sentir-se profundamente sozinha?
Essa é uma experiência muito comum entre mães que vivem fora do seu país de origem.
Durante o dia, estamos cercadas pelos filhos, pelo parceiro, pelos colegas de trabalho ou por outras pessoas da rotina. Mas, mesmo assim, pode faltar algo essencial: alguém com quem possamos ser verdadeiramente nós mesmas.
Alguém que, de fato, conheça a nossa história.
Alguém com quem possamos compartilhar as alegrias, além disso, as dúvidas, os medos e as saudades sem precisar explicar tudo desde o começo.
Essa sensação não significa, necessariamente, falta de companhia. Muitas vezes, ela revela a ausência de algo ainda mais importante: o sentimento de pertencimento.
O que é saúde social?
Quando falamos em saúde, a maioria das pessoas pensa imediatamente em alimentação, atividade física ou sono.
Esses fatores realmente são fundamentais, mas existe outro aspecto igualmente importante e que ainda recebe pouca atenção: a saúde social.
Na Medicina do Estilo de Vida, reconhecida internacionalmente como uma abordagem baseada em evidências para a prevenção e o tratamento das doenças crônicas, a saúde social é considerada um dos pilares do bem-estar.
Isso porque os seres humanos foram feitos para viver em conexão.
Porque a forma como nos relacionamos influencia diretamente nossa saúde mental, emocional e até física.
Mas existe um equívoco muito comum.
Muitas pessoas acreditam que ter saúde social significa possuir uma agenda cheia de encontros, dezenas de amigos ou uma vida social extremamente ativa.
Entretanto, na realidade, não é isso que a ciência mostra.

Pertencer é mais importante do que conhecer muitas pessoas
Porque quando falamos em saúde social, quantidade nem sempre significa qualidade.
Mas o que realmente protege a nossa saúde é o sentimento de pertencimento.
Já que, pertencer significa sentir que fazemos parte de um grupo, de uma comunidade ou de uma relação onde somos aceitos como somos.
É saber que existe alguém que conhece nossa história.
Que comemora nossas conquistas.
Que oferece apoio quando precisamos.
E que nos faz sentir vistos, compreendidos e acolhidos.
Pois esse sentimento é especialmente importante para quem vive um processo de imigração.
Ao mudar de país, muitas das conexões construídas ao longo da vida ficam para trás.
Família, amigos de infância, colegas de trabalho, vizinhos e toda uma rede de apoio desaparecem da rotina praticamente de um dia para o outro.
Além disso, reconstruir esse senso de pertencimento leva tempo.
E isso faz parte do processo.
O que a ciência nos ensina sobre conexão social?
Durante muito tempo, acreditou-se que quanto maior fosse a rede social, melhor seria para a saúde.
Porém, hoje sabemos que a qualidade das relações é muito mais importante do que a quantidade.
Estudos sugerem que manter aproximadamente três a cinco relacionamentos próximos, baseados em confiança, apoio e reciprocidade, já está associado a importantes benefícios para o bem-estar físico e emocional.
Isso traz uma mensagem muito reconfortante para quem vive longe do seu país.
Você não precisa conhecer todo mundo.
Não precisa estar presente em todos os eventos.
E não precisa construir uma grande rede social imediatamente.
Às vezes, cultivar poucas relações profundas pode oferecer muito mais proteção do que dezenas de conexões superficiais.
Por que isso é tão importante para mães que vivem no exterior?
A maternidade, por si só, já transforma profundamente nossa vida social.
Já que, depois dos filhos, o tempo diminui.
As prioridades mudam.
A energia também.
Quando essa maternidade acontece em outro país, surgem desafios adicionais.
Muitas mães não têm avós por perto.
Não contam com familiares para ajudar.
Precisam construir amizades do zero em outra língua, outra cultura e, muitas vezes, enquanto cuidam de crianças pequenas.
Não é difícil entender por que tantas mães imigrantes relatam sentimentos de solidão, isolamento e saudade.
Mas existe uma diferença importante entre estar sozinha e sentir que não pertence.
É justamente o pertencimento que ajuda a diminuir essa sensação de isolamento.
Como começar a construir pertencimento?
Não existe uma fórmula pronta.
Porque o pertencimento nasce aos poucos.
Ele é construído através da convivência, da vulnerabilidade e das experiências compartilhadas.
Talvez o primeiro passo seja aceitar um convite para um café.
Participar de um grupo de mães.
Enviar uma mensagem para alguém com quem você gostaria de manter contato.
Ou simplesmente permitir que outra pessoa também cuide de você por alguns instantes.
Cada pequena conexão é uma semente.
E, com o tempo, essas sementes podem se transformar em uma rede de apoio verdadeira.
Você não precisa passar por essa jornada sozinha
Se existe algo que aprendi acompanhando mães brasileiras que vivem no exterior é que quase todas carregam a mesma necessidade.
Não é apenas fazer amizades.
É encontrar um lugar onde possam ser compreendidas sem precisar explicar cada detalhe da própria história.
Um lugar onde possam sentir que pertencem.
Foi justamente por acreditar no poder dessas conexões que nasceu a minha comunidade.
Mais do que um espaço para falar sobre saúde, ela foi criada para que mães brasileiras vivendo fora do país encontrem acolhimento, informação baseada em evidências e, principalmente, conexões verdadeiras.
Porque cuidar da saúde vai muito além da alimentação ou da prática de exercícios.
Também passa pelos vínculos que construímos.
E ninguém deveria enfrentar os desafios da maternidade e da imigração sem sentir que pertence a algum lugar.
